Nova Iguaçu antes e depois da Via Light.

O município de Nova Iguaçu, antes da construção da via Light, possuía uma configuração espacial bem peculiar, partida por duas linhas. A primeira e mais antiga, a via férrea, que cortava o centro da cidade, dividindo-a em duas áreas totalmente distintas e a segunda a linha de transmissão de energia da Light S/A, construída em 1938.

De um lado da via férrea foi desenvolvido uma a área residencial espremida pela Serra de Madureira, onde se instalou a classe média alta dessa sociedade; do outro lado, espremido pela linha de transmissão de energia, foi desenvolvida a atividade econômica predominante da cidade, o comércio e os serviços.

A única área próxima à estação que era residencial de caráter urbano localiza-se no sopé da Serra de Madureira, do lado sul da ferrovia, onde os donos dos barracões, exportadores e profissionais liberais construíam suas mansões na subida dos morros, fugindo do tumulto e grande movimentação comercial próximas a estação e do calor que fazia nas partes mais baixas. Esta área vai ser o embrião do sub-bairro “Outro Lado”, habitado pelos mais ricos nos dias atuais onde há o maior valor do solo urbano em Nova Iguaçu.

O outro lado da linha ferroviária, estavam concentradas as atividades do centro comercial, ancorado pelos comércios locais, e dentro dos muros das linhas de transmissão de energia elétrica, existiam pequenas hortas, que abasteciam a antiga Associação Rural local. Nas áreas intramuros restantes, existiam muitos espaços ociosos, que em sua maioria eram utilizados como pasto de animais, o que perdurou enquanto havia pouca urbanização na região localizada entre a rede ferroviária e as torres de transmissão.

Assim, o parcelamento das terras, que compunham o território inicial de Nova Iguaçu, nos inclina para a percepção de cidade “partida” entre três principais estruturas urbanas entre a linha ferroviária, pertencente à Rede Ferroviária Federal; as linhas de transmissão de energia elétrica, pertencente a empresa Light S/A; e, a rodovia Presidente Dutra.

Esse zoneamento não oficial irá perdurar até 1996-1997 quando são construídos o Top Shopping e a Via Light, iniciando um tímido progresso de expansão dos negócios para este trecho.

A partir da construção da Via Light, Nova Iguaçu se vincula à uma nova fase, pois ela se configura como um marco de mudança de imagem para a cidade, e esta nova interpretação sobre a dinâmica da cidade acaba por atrair um desenvolvimento econômico significativo. Hoje, o que vemos na paisagem local após a construção da Via Light é uma área em constante transformação que geram novas edificações com conceitos de modernidade.

A expansão do Top Shopping e a construção do Shopping nova Iguaçu, fora do desses dois setores contribuiu para a criação de um terceiro setor de negócios, que está sendo implementado ao seu redor, principalmente entre estes e a Via Light. Nos Shopping centers a estrutura é praticamente igual ao padrão de todos os outros. Existem as grandes lojas âncoras, filiais de grifes famosas, uma praça de alimentação diversificada, cinemas que passam filme de grande apelo de mercado e, no meio disto, pequenas lojas do empresariado local que procuram conquistar os consumidores das marcas consagradas. No caminho entre a Via Ligth e os Shoppings se instalaram diversas lojas voltadas para um comércio complementar e concorrente a este, mas que não possuem uma rentabilidade que permita pagar os altos custos do Shopping.

As transformações nesta área estão em curso, com o aparecimento de diversos empreendimentos que buscam capturar os frequentadores dos Shoppings sendo mais que um centro de compras, tem se tornado um centro de lazer e de passeio na cidade. Mas nesta área também se percebe a estratégia de criação de reservas de valor com vários imóveis novos sendo erguidos.

É inegável que a Via Light altera a dinâmica sócio espacial e, por consequência, sociocultural do município de Nova Iguaçu. As mudanças no traçado urbanístico local e regional acabam por interferir, diretamente, no modo como os cidadãos iguaçuanos se relacionam com a cidade, o que também afeta suas memórias e significados quanto a sua paisagem cultural.

O crescimento urbano que se instalou por toda margem da avenida mudou a dinâmica da cidade, a visão que os iguaçuanos tinham do centro e de seu entorno, além de possibilitar um novo entendimento sobre a cidade como um todo, como discutido anteriormente.

A Nova Iguaçu conhecida, na contemporaneidade, como uma importante centralidade da Região Metropolitana de Rio de Janeiro, com seus espaços modernizados que tem a Via Light como grande marco espacial e histórico desse processo e é sem dúvidas, uma cidade totalmente diferente da constituída até a década de 1980. A derrubada dos paredões que cortavam as principais ruas de seu centro e deixavam em seu “coração” espaços ociosos e barreiras para a circulação dos transeuntes, que dava a impressão de uma cidade partida ao meio, com dois cenários bem diferentes, significou a produção de uma nova paisagem urbana e cultural.

A consolidação da via também trouxe diversos novos equipamentos urbanos, que foram construídos, ao que parece, na tentativa de formação de uma nova configuração paisagística e espacial da região, neste sentido a Via Light continua a exercer papel central nas transformações urbanas, paisagísticas, arquitetônicas e culturais, interferindo na ressignificação da paisagem cultural neste eixo metropolitano.

Por fim, aponto que de fato, a via trouxe uma gama de oportunidades comerciais; imobiliárias e de serviços; e passado trinta anos de sua construção ressignificou a visão e relação do próprio cidadão iguaçuano com sua cidade.

Msc. Adm. Eco. Luiz Cláudio Brites Lobato